isso quem escreveu foi a adélia

Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.

(Adélia Prado)

que fogueira é essa?

(Davy Sales, 2010)
para L.

Linda, também doce
Delíciosa e encantadora, estou tonto
Rio, fico vivo, sou seu alvo
E não sei o que ou que, me acendeu uma fogueira
caçou minhas armas

Pau bravo, de repente, incendeia
Gozar ela, fundir nela
Fluir, engasgar, desejar

De longos cabelos e lábios alegres
Seu jeito meu arrepio tão atravessado me deixa
De alegria abusada e presença irradiada
Como ave rara, flor pequena ou sorvete denso

Que eu a sorva, beba e coma
Epifanias
Qualquer advento
Seja brasa depois carvão
Ela é linda

zera a reza

(Davy Sales, 2009)

 

minh´alma esticada no esterco

teu nome é recusa amarga

salvo gozo não me arrependo

cada salto cada chuva cada rasgo

prefiro sempre o vinho de tua boca

nunca o hálito dos esgotos

passos e deslizes

fio de faca tesa

naufragar agora

mas nunca parar

desistir é verbo deixado borrado

Mel africano

(por Davy Sales, 2007)

oh sinos que a mim tocam
oh estandarte de brilho africano
cápsula de odor fruto meu
eu que desejo tenho ávido
ao cruzer meu olho no teu
labaredas de devir
rapto tua alma e ceifo-te o mel
de doce colo a pele negra
calor que aquece meu horizonte

ópaíó

(por Davy Sales, 2007)

opúsculo alto e hierarquia
fantasmas na cidade herbívora
corremos em buscas e utopias
todo nosso tempo
uma, sua harpia

Oxímoro

(por Davy Sales, 2007)

De mim não resta senão o parco agrado
Por ora sujo meu nome e agradeço em surdez indolor
Na quarta-feira rego minhas plantas
Dia de sábado construo orgias
É nesse nome que rogo doce união para ver a luz da carne oculta
Para galgar no teu asno e sustentar hipocrisia lírica
Afago de tonéis robustos como esquentar tambores d´alma
Tua lembrança reta
Minha cadela a latir e rosnar

Capiarara

(por Davy Sales, 2006)

Ó luar agreste
Seara silvestre
Meu caro encanto

Tesouro de diurno sonho
Não pare
Alimente meu caminhar

Destila em mim
Teu suor seco
Pactua comigo de vez
Tua angústia ancestral

Quando assim essa terra
Já for eu esse mel e leite
Terei paz

Project nonsense

(por Davy Sales, 2006)

Tua liberdade insinuada
Esconde-se em farpas de madeira-fé
Quando ví tua esperança debruçada e morta
pensei em aventuras
Na aurora ida
Mas seus sons enfronhados em hermético plano
Castrou meu desejar

haikai 2

(por Davy Sales, 2006)

Do saldo, vinte
Da cantina, vime
Do pará, botão

haikai 1

(por Davy Sales, 2006)

A delícia tardia
Na volúpia egoísta
Daquele desejar

habeas corpus

(por Davy Sales, 2006)

eu, alvo de teu olhar
tua presença, meu êxtase
quero outra vez a prata lua

entre brancos lençóis e aspirinas
por sobre arcaico desejo, já ido
na devastada floresta do par
encontro em ti a utopia
novamente aposto no futuro.

átomo do findo gozo

(por Davy Sales, 2006)

arde em mim
entre tormentas passionais
o nosso amor findo
restou nada
vazio no peito
sofrer extremado e amargo
leva tuas coisas
sai de minha casa
esquece esse lar que te abrigava
cospe neste ninho
ontem teu refúgio
hoje cárcere
adeus.

pouca vergonha

(por Davy Sales, 2006)

Não entendo.
Meu coração ainda pulsa.
Que tregédia.

vinte e dois

(por Davy Sales, 2006)

olhar-te, saborear teu ser,
imaginar coisas inomináveis,
planejar te ter.
como é caro, o ardor, o desejo
deixa que eu cale em mim teu nome.

esnobes e facistas

(por Davy Sales, 2006)

não acredito em você
nem no papa
tenho horror de pastores
e seus rebanhos
o facismo de teu nome
me engasga
tua farsa burguesa
já não me corrompe

seus óleos e perfumes raros são abutres
procurei caminhos oportunos
para sair da tua cilada
para deixar a tua morada
para ser eu assim sem teu nome

fumando espero

(por Davy Sales, 2006)

lentamente fui surgindo
num gerúndio esquisito
como quem quer navegar
só sei que viver dói
sinto cada lâmina e tensão

se nalgum dia serei zen
se noutro terei teu corpo
de que importam as coisas outras?
se é o mel do teu abrigo
que busco, que sinto?

finissage d'été

(por Davy Sales, 2006)

vou repetir Adélia Prado
vou dizer que, as vezes,
eu olho pedra e vejo pedra

mas já quando a noite caía
tinha ao meu lado
branco papel retorcido
doce desejo vindo

e à torrente de imprudente jorro
anunciava - subira, atingira um alvo

na revolta do mendigo contra seu delator
no burburinho de vozes e olhares circuvizinhos
que a solidão do vagabundo que eu mirava
revelava: havia outro desenho possível

desapego
desamarras
devir noturno
amplidão

Imbecil

(por Davy Sales, 2006)

A leveza não é para todos
Ou para qualquer um
É preciso ser limpo
Gostar da beleza
E da solidão

Você verme fútil
Quer apenas confusão
Tua fala vazia
Não ecoa no coração

Tua vida é perdida
Não nasce daí sementes
Nessa reles e vã descida
És tu a bandeira de frente

Julgas poder julgar outrem
Porém tua incensatez é patente
Quando falas contra o mundo
É que te desenhas em porvir

Se o ódio é uma possibilidade
A ti levará com sobriedade
Aquele respiro último
Dos vencidos e fracos

Tua vida um distúrbio
Não alimentas a amizade e a retidão
És parafuso sem conserto
Lugar vazio de paixão

por falar em destino

(por Davy Sales)

cada passo que dou
sinto meu corpo ascender
cada grito que dou
sinto meu ser estremecer

para cada palavra dada
uma pedra, meu estoque
para cada silêncio tido
uma águia, meu limite

meu caminho é cada dia
nunca sou
estou sendo
está doendo
me refazendo

meu caminho é a solidão
destino é por mim buscado
não espero de ninguém

não quero lugar para parar
não quero sobras da imensidão
quero espaço
amplidão

Nesse vir-a-ser
decomponho-me em mil possíveis
construo identidade diária
hoje rio
amanhã soluço
no futuro eu aposto

a paixão é efêmera

(por Davy Sales)

minha dor não escondo
nem chagas deixo sob o escombro

eu que sempre desejei a ternura
na tua mão nunca enfrentei a doçura

se do punhal que me passastes no peito
se do último gozo não vivi como o eleito
é porque tua promessa era impura
é porque tua mácula não trazia ternura

imperfeição da história amorosa


(por Davy Sales)

quero ter a soma dos amores
tidos, perdidos ou conquistados
nesse devir de amantes
resta a flor do amparo

os resquícios de tua boca suja
de tua insensata ausência
fez roer meu íntimo
cavado até a última semente

não ouço mais tuas promessas
caminho meu em desalento
e tu, que um dia fostes minha sina
hoje é nada e nem convém

arrisco-me em nova procura
tua insana presença apago
vivo a mercê de lembranças secas
nunca a doçura de retido amor.

meu caminho é cada manhã

(por Davy Sales)

Viver, verbo incandescente
Sofrer, verbo intenso
Amar, sortilégio dos românticos
Querer, quimera de se ter
Ser, apanágio da dor

Eu que nunca nada pedí
Vou assim, devagar
Na luta, na contramão
No sofrer que é o viver

A violência do existir
Não cessa
Me atravessa
A despeito de mim.

como uma onda no mar

(Por Davy Sales)

Quando havia você,
meta impossível,
Eu desejava, queria.

No momento em que você é livre,
e se aproxima, Eu desisto.

A carne sucumbe ao tempo
O que restava não era o desejado
Mas o gosto amorfo, a pele sem odor,
a opacidade: Eu não te reconheço mais.

la vie sensible

(por Davy Sales)

Na sarjeta de minh´alma
Entre vermes sedentos
No fim da minha época
Sentí-me inteiro
Por primeira vez.

Meu ser intacto restava à devoração
Do tempo passado, do tempo presente.

E numa quietude à vista
Vislumbrava
A possibilidade tida
De um dia
Ao rair d´aurora desse tempo
Abriria-se a fenda

Eu semente retorcida
Vingava a vida
Amanhecendo.

W3-Parque

(por Davy Sales)

De longe a vejo, aberta, sobre o planalto
Sua amplidão incita o voyeur à poética dos lugares
Funda-se o êxtase do espaço
Como é bela esta cidade.

Descobrí que Brasília tem esquinas
Basta circular por suas asas
A cidade está pronta, já é uma loba

O cheiro no ar, de construçao
No parque, reflito
Cidade do poder
Da anarquia e filosofia

Nesta civilidade possível
Vários rostos, terra brasilis
Sua geometria dura, pesada, estável
É um convite ao pensamento
À luxúria
À contensão

Quero essa cidade para mim
Nutrir-me em seu gozo

Ao Maior

(por Glauco Mattoso)

Maior é o sentimento que o sentido.
Maior é a solidão do que a saudade.
Maior é a precisão do que a vontade.
Maior é Deus, segundo o desvalido.
Maior é o sabichão do que o sabido.
Maior é a servidão que a majestade.
Maior é o masoquismo do que Sade.
Maior é o meu poeta preferido.
Quem faz muito soneto, cedo ou tarde
acaba produzindo uma obra-prima,
contanto que não faça muito alarde.
Por trás da mera métrica ou da rima
esconde-se a coragem do covarde
e o medo, que jamais me desanima.

Com licença poética

(por Adélia Prado)


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Versos Íntimos

(por Augusto dos Anjos)

Vês?!
Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d'Arco, 1906